segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Hosekeeper`s Life

[AQUI HAVERIA UMA FOTO, MAS COMO O PC TA MAIS LENTO QUE EU VAI SEM FOTO MESMO]


`Eu nao acredito que estou aqui! Nao acredito..`
Eu pensava duas vezes isso, enquanto eu atravessava a pista de esqui, atolada na neve, com pouca roupa no frio (eu que vivo encasacada sai de casa desprevinida naquele dia..)
Eu pensava deslumbrada, na primeira temporada na neve, quase no topo da montanha, cheia de pinheiros com porcoes brancas (e que nao eram cafonas isopores ou algodoes de arvores articiais de natal) o povo esquiando a minha volta quase com a perfeicao de um ballet bem executado..`Que lindo, nao acredito que estou aqui!`

E a segunda era:`Nao acredito! Eu que vim pra esse pais pra trabalhar como hostess, soh sorrindo e sendo a cara bonitinnha do restaurante, laaaah no Sunshine State, Florida, estou aqui atolada na neve de Utah, atravessando uma pista de esqui pra cortar caminho do hotel para o escritorio de recursos humanos, quase sendo atropelada pelos esquiadores, com os meus pes molhados, em processo de congelamento..tudo isso pra ser housekeeper, limpar 15 quartos por dia a 8,50 dolares por hora! Logo eu que as vezes levava um dia inteiro e nao limpava o meu quarto!


No primeiro dia de trabalho subi o elevador, crente que era uma hospede, soh me dei conta da minha funcao quando tive que empurrar um carrinho cheio de toalhas, produtos de limpeza, vassoura e aparatos que usamos pra limpar o quarto. Na realidade sao dois carrinho - tem mais um pra botar a roupa suja- mas naquele dia eu ainda estava soh de ajudante. Parei pra refletir como eu via uma camareira quando ia a um hotel. Percebi que quase nunca via. Pra uma pessoa narcisista como eu, a sensacao de nuca ser vista pode ser pavorosa. Ai me lembrei das ferias passadas quando la em Fortaleza (aaai que era quente e tinha sol!) desconfiamos da coitada da camareira quando sumiram umas coisas do quarto..ehh, melhor nao ser vista mesmo.

Nos tres primeiros dias ficamos ( minha irma e Thais que mora com a gente tambem estao trabalhando la)apenas ajudando outros camareiros mais experientes pra aprender o servico..como se eu nao soubesse arrumar camas e limpar banheiros..eh nao sabia mesmo, nao 15.
A minha mestra do primeiro dia foi Lorenza, uma senhora mexicana com seus 40 anos, mas cara de 50 ou mais.. Eu disse a ela que tinha medo de nao dar conta do recado, porque sou meio lenta..Ela me disse que eu devia ter paciencia e aprender aos poucos e que nao temer a ninguem alem de `Dios, nuestro padresito` achei tao inocentes e ao mesmo tempo sabias as palavras dela.
Depois do almoco ela me disse que nao importa o trabalho que fizermos, se fizermos com amor sera bem feito..Achei poetico..mas quando ela estava repetindo isso para a supervisora (a pessoa que passa nos quartos conferindo se o trabalho esta bem feito), bem nessa hora eu ja estava possessa de ter que limpar uma banheira cheia de pentelhos de um americano que nunca vi na vida e ainda sem luvas, porque ela nao usa pra ir mais rapido (mas eu queria usar..uiii que nojo! e ela esquceu de pegar pra mim) Ai ela dizia, `hay que hacer el trabajo con amor` eu abro a privada e vejo outro vestigio do americano infeliz, gotas amarelas no acento..Amor? soh se for ao dinheiro que vou ganhar..

Os dias foram se passando e quando comecei a trabalhar sozinha nao dava conta da minha lista, ateh hoje nao dou, acabam me mandando ajuda no fim dia, mandam as pessoas que ja terminaram, mesmo as que pegam quartos muito mais dificeis que os meus. Minhas maos foram secando e chegaram a se cortar de trocar roupa de cama (da uma raiva quando o lencol de elastico eh menor que o colchao..grrrr) e mexer com os produtos de limpeza e o clima aqui eh muito seco, estamos no deserto literalmente.
Eu soh pensava no que a mamae disse no telefone ` Voce nao precisa se submeter a isso, pode voltar pra casa quando quiser.` Mas depois a gente tambem brigou e ai eh que eu nao vou voltar mesmo, nao sou uma filhinha da mamae que volta correndo pra casa, nao mais..espero..E eu que nao ia deixar de ganhar uma graninha, depois que esses Estados Unidos consumiu toda a minha.



E aquela rotina: acordar seis da manha, sair no frio, muitas vezes nevando, pensar na vidinha de Floripa: acordar, calcar um chinelo, andar 10 minutinhos ate a UFSC, sentar onde seja mais facil se encostar na parede, ver a Talita chegar mais atrasada que eu, com cara de sono, mas sorrindo, tirar um cochilo na aula, dizer uma frase inteligente e sorrir pro professor, ligar pra Ursula que tem celular com toque de sapinho e nunca ta no silencioso, ouvir perguntas indiscretas do Fabio, especular a vida de toda a turma em voz baixa, ser convidados a compartilhar com a turma, mandar mensagem pro Junior pra dizer `oi, eu te amo` e essas coisas..perguntar pra Fabi o que ta acontecendo, se espreguicar e voltar pra casa..

Ehhhhh, agora eh so sonhar com essa vidinha de Floripa dormindo no onibus como uma tipica operaria de Joinville a caminho do canion gelado, e na subida o ouvido tranca..tuuuuuuuu..ta alto, to quase chegando no ceu , ou no meu inferno diario..
Pegar minha lista de quartos, preparar os carrinhos com toalhas, aspirador, esponja..que que eu to esquecendo hoje?? Pegar a chave, enfrentar a fila no elevador de servico..tentar fazer pelo menos cinco quartos, pra descer, almocar um congelado de um dolar em meia hora, ou menos porque sempre no atrasada, voltar, arrumar mais quartos, se perder em quantos arrumou..
Mas tem a parte cultural: sempre leio as contracapas dos livros que os americanos tao lendo, quase todos tao na lista do New York Times, nao sei se todos os livros vao pra essa lista ou se aqui eles soh leem os livros que estao la. Sem contar os jornais do dia anterior que pego no lixo, eh bom quando um cliente vai embora e deixa o jornal fresquinho do dia, sem nem ter aberto, ai eu volto no onibus me deliciando, ateh pegar no sono claro!
ahhh e praticar muito o idioma! Quando voltar pro Brasil, darei aula de lingua estrangeira, qual?? Spanish, claro! Todos os funcionarios do housekeeping sao mexicanos, vim pros EUA pra praticar o espanhol..mereco! E eles me acham uma genia falando ingles com os hospedes..meu pobre ingles-tupi! Eh incrivel muitos moram ha 10, quase 20 anos aqui, e mal entendem ingles, muito menos falam.


Nunca me imaginei nessa vida, nem voces podem imaginar..Quer dizer, quem conhece o meu desatre imagina uma parte: as topadas nas camas, quando vou abrir as janelas os cabinhos de puxa-las batem na minha cara, o cabo que segura a capa do banheiro caindo na minha cabeca, eu penso que vou abrir a torneira da banheira, abro a do chuveiro e cai agua na minha cabeca..Como dizem meu amigos: Joanear, o verbo que descreve o desastre em pessoa.
E as minhas caras e ruidos de nojo..ecaaaaaa, grrrrr,uiiiiiiiii, aiiiinnnn, maaaaeeeeeeee quando encontro aquele banheiro cheiroso e `decorado`! Fiz as contas: ateh ir embora terei limpado uma media de 300 banheiros e arrumado cerca de 500 camas!
Bem feito pra mim sempre tao nojentinha, fresquinha..coitada..ta ali na faxina agora Joana, quem mandou querer ser filhinha de papai sem dinheiro, vem pros EUA, mas vem limpar banheiro..hahahha Eu mesma dou risada da minha cara.

Eh bom pra aprender a dar valor..essa vida de Maria do Bairro nao eh facil, mas assim como nas novelas mexicanas vou dar a volta por cima, pegar um aviao, voar pra bem longe e encontrar meu principe. Como toda tipica mocinha coitadinha, passo dia aqui desmoronada, pensando na hora do desembarque..Brasil, mamae, papai e ele! Vai ser perfeito..

As vezes eu quase piro parece que minha vida eh soh essa rotina, dureza vida bandida..parece que tudo que vivi antes foi ilusao e que nunca mais vou sair dessa geleira..Mas como diz a musica: ` Vou partir a geleira azul da solidao`

E sao soh mais 10 dias de trabalho na Snowbird..ah tambem tem um restaurante onde faco uns extras uns poucos dias da semana, mas la eh soh alegria, comer hot dog, fritas e muuuita coca de graca.

Pro Brasil faltam 22 dias..vamos para a reta final, quem sabe ateh la eu faca posts mais constantes e mais curtos..Torcam pra eu comprar um lap top..aiii minha muambas..pensando assim ateh que as privadas vao valer a pena!

3 comentários:

Farfalla. disse...

Joaninha!

Vôo de alegria por palavras suas, ainda mais com um texto tão descontraído de uma situação tão diferente de tudo que já passamos no Brasil como eternas filhinhas estudiosas do papai. Certamente que não pude deixar de rir (não de você, estou rindo com você, já que o melhor é manter o bom humor).

É como você disse, as coisas ficam como aprendizado na hora de saber enxergar melhor as coisas e entender a condição das outras pessoas. Além do mais, quando você voltar vai ganhar tempo por já estar experiente em arrumar quartos... (brincadeira)

E quando voltar, além do príncipe encantado, estarão todos a seus pés de tanta saudade e você vai ser recompensada por não ser muito vista aí nos Estados Unidos. Todos irão querer ser "vítimas" das suas ligações, perguntas e mensagens.

Torço por você e para que tenha forças de terminar de limpar os banheiros.

I love you, little joana ;)

Talita disse...

Jôoo
sempre com seu bom humor, ironias ótimas e claro... invejavel poder de observação e descrição!
To viajando um pouquinho com você conhecendo as 'maravilhas' da 'América'...hehe
beijooooo
saudades muito grandes

Maria Lucia disse...

Filha,
Você é genial!
Mas como disse o teu pai podia ter nos poupado dos detalhes sórdidos e sujos... (risos).
A vida é um aprendizado e nada melhor para entender a dor do outro do que vivenciar-las, que sábia a mexicana tua mestra na faculdade da vida. Mas chega, é hora de voltar pra realidade com novas experiências e compreensão da vida. Quero faças uma conversa com meus alunos do terceiro ano sobre a vida dos imigrantes pobres na América.

Um beijo
Te amo.